quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Capitulo I - O primeiro sonho - Amelia Atkins

Era espantoso como eu conseguia sonhar tanto numa noite fria como aquela.
Cheguei a sonhar três sonhos na mesma noite. Era um fábrica de sonhos. Uma criadora de sonhos mais estranhos que os antecedentes.
Aqueles que temos em crianças.
Como? Como? Perguntava eu...
Nada havia a explicar. Tinha de aceitar então o facto que tinha sonhos atrás de sonhos, utopias loucas, atrás de utopias loucas.
Quando eu os contava a alguém, perdiam sempre o encanto.
Não haviam palavras para descrever as paisagens que via, as pessoas que conhecia, os animais que passeavam dentro da minha mente. Eram demasiado meus! Eram demasiado vindos de outro mundo para me atrever a contar a alguém como eram e o que eram.
Era uma jornada fantástica. Mas ninguém saberia onde eu ia e o que via.
Eu mal sabia falar para contar. Parecia que a minha mente não me fornecia as palavras que eu necessitava.
Mas eis que aconteceu algo extraordinário!
A minha vida era suave e branda. Ocorriam-me coisas más e boas como a toda a gente. Ultrapassava as coisas más e festejava as boas. A minha realidade era o que se chama de "realidade ligeira".
Deixei de sonhar com estes lugares maravilhosos e enfrentei a realidade da pior maneira.
Os sonhos davam-me a ver agora a realidade pela perspectiva de alguém que não levava a vida tão simplesmente como eu.

Foi numa noite, num sonho em que vi essa pessoa pela primeira vez.

Estava numa casa velha, poeirenta, muito escura, muito triste. Eu ouvia a trovejar lá fora, a luz do sol estava fraca.
Depois olhei para a pessoa que estava sentada numa cadeira de baloiço. Tinha a mão branca debaixo do queixo, o cotovelo apoiado no braço da cadeira e estava muito pensativa, parecia remexer em memórias ou a pensar simplesmente no que havia de fazer à sua (complicada) vida.
Era uma mulher.
Uma mulher belíssima, a mais bela mulher que eu já vira, em sonho ou em realidade.
Tinha os cabelos cor de cobre, lisos com alguns jeitos e pelos ombros. Tinha uma pele lisa, cor de pêssego a tender para o branco, os olhos...Que Olhos! Olhos que olhavam para o vazio com um misto de gentileza, suavidade, tristeza, alegria...enfim todo uma mistela de paradoxos e emoções que numa palavra podia dizer-se que aquela mulher tinha um olhar...Vivo!
As vestes eram negras, mas muito sui generis.
O casaco parecia influenciado por um estilo militar, as calças ficavam-lhe curtas e permitiam-me ver as brancas e finas pernas que no seu fim tinham uns pés e por sua vez esses pés estavam aprisionados dentro de uns sapatos que pareciam ser bastante velhos e masculinos, mas entendi logo que seriam os seus sapatos favoritos.
Seriam alguma herança?
Aproximei-me. Ela fulminou-me com aquele olhar que eu tinha admirado tanto.
Percebi então que ela era algo desconfiada.
- Quem és tu? - Perguntou-me ela.
- Eu chamo-me Amelia Atkins. E tu?
- Não me conheces? - Perguntou ela, olhando para mim incrédula.
- Nunca te vi na vida... - Respondi eu, não sabendo se ela ia fica chateada, se feliz.
- Chamo-me Mary Sanders, mas conhecem-me por Mary Addams. - Disse ela baixando os olhos em direcção ao chão.
- E eu não te conhecer faz de mim uma ignorante, não é?
- Se queres ver isso por esse ponto. Sim...talvez...
- Peço perdão, mas és conhecida por fazer o quê?
- Eu canto, toco piano, pinto, escrevo...etc. Não te sei dizer tudo o que faço. Mas que estou eu a fazer? Estou a falar com uma pessoa inventada pela minha imaginação...
- Eu sou bem real. Tu sim, és um sonho.
- Não sou, não. Sou também muito real. Mas gostava de não o ser.
- Porquê?
- Nem queiras saber. O Mundo não é como queremos,sabes?
- Claro que sei. Achas que ficar sentada a uma secretária todo o dia a fazer o meu trabalho e aquele que os outros não fazem é algo bom?
-E gostavas de estar a fazer o teu trabalho e a ser constantemente perseguida por jornalistas e admiradores só para saberem que champô é que usas? Ou com caneta escreves? Ou quantas vezes vais à casa de banho por dia?
- Compreendo que não seja fácil.
- Não é fácil. Seres a marioneta da vontade dos outros é simplesmente uma maldição que não quero que mais ninguém carregue.- Disse ela, algo irritada.
Naquele momento olhei para os sapatos dela. Cada vez achava que gostava mais deles.
- Gosto dos teus sapatos. - Disse eu num tom demasiado infantil do que eu queria que tivesse saído e para minha grande surpresa ela começou a chorar.
Para remediar o que tinha feito, também eu me comportei como uma criança: sentei-me no chão aos pés dela e pus as minhas mãos nos joelhos.As lágrimas dela desciam pelo rosto belo abaixo.
- Chorar não vai resolver nada. Mulheres como tu, não devem chorar. Nunca! - Disse eu. Mary olhou para mim surpreendida, como se eu fosse a unica a querer saber dela realmente.
Sorri-lhe e forcei-a a retribuir-me um sorriso. O sorriso fantástico que encheu aquela casa de luz apesar da tristeza ainda nela presente.
Comecei a desvanecer e via o rosto assustado de Mary.
Finalmente acordei. Tinha sido um sonho. Mas seria aquilo apenas um sonho?