- Já fui da tua idade. Ainda estás a formar-te como adulta. Mas aproveita enquanto ainda não o és definitivamente. És alguém raro. Orgulha-te disso.
- E orgulho-me disso. Sabes Mary, estou há um dia a tentar descobrir a fonte da angustia que vejo em ti. Mas tu sabes esconder os teus segredos. Perdeste alguém. Vê-se isso nos teus olhos. Sentes saudades dessa pessoa. Precisas dela agora. E ela não está. - Mary fulminou-me com o olhar vivo e sorriu.
- Ainda não está na hora de te contar. Mal te conheço.
- E este for o último sonho que temos juntas?
- E porque havia de ser o último, Amelia?
- Nunca se sabe o dia de amanhã.
- Sim. Mas isto é um sonho. Nada mais que isso.
- Não, Mary. Uma coisa que eu percebi antes de adormecer foi que isto é tudo menos um sonho. Isto é um encontro.
- Um encontro?
- Sim, sem dúvida é muito estranho, mas é a realidade. Isto está a acontecer porque talvez precisemos uma da outra. - Mary olhou-me como se fosse repreender uma criança, mas com meiguice.
- Porque havia eu de precisar de ti, Amelia?
- E porque havias tu de sonhar comigo, Mary?
- E porque havias tu de sonhar comigo, Amelia? - Estávamos as duas a olhar uma para a outra cheias de perguntas. Mas depois suspirou e olhou para mim como alguém que vai dizer a verdade - Tenho de admitir, eu preciso de alguém. Não alguém do trabalho, nem meu vizinho. Alguém que eu conheça de fora. Um amigo. Um verdadeiro amigo. Alguém com que eu possa contar. E talvez esse amigo, aliás amiga, sejas tu. Nunca se sabe.
- E porquê eu?
- Porque nem sequer te conheço. Nunca nenhuma aventura. Talvez esta seja a aventura da minha vida. Talvez seja desta vez que vou recuperar a confiança que perdi há muito tempo. Mas para isso preciso da tua ajuda. Achas que posso contar contigo? - Fiquei relutante. Ela tinha razão. A minha vida vazia precisava também de alguma aventura. Algo de que eu me orgulhasse.
Tive forçadamente que concordar com ela.
- Conta comigo. - Ela sorriu levemente e continuamos a andar.
O silêncio estava bem presente, a calma era envolvente. Mary parecia mais bem disposta naquele sonho glorioso.
De repente senti uma força a querer que eu corresse. Olhei para o olhar tranquilo de Mary.
Por momentos disse:
- Não, não lhe vou fazer isso. - Mas depois agarrei-lhe na mão e puxei-a para que corresse comigo.
- O que estás a fazer?! - Perguntou ela passada dos carretos.
- Cala-te e corre! - Exclamei eu sem juízo algum. E corremos pelo jardim a fora.
Para mim foi uma sensação libertadora e quando dei por mim, Mary corria de livre vontade, a rir e ia ao meu lado. Tínhamos o céu azul à nossa frente. O sol brilhava intensamente e ria.
As flores abriam à nossa passagem.. Foi a primeira vez que vi Mary realmente feliz.
Percebi o efeito que causava na vida dela.
Percebi que ela precisava mesmo de mim. Mas que eu também precisava dela.
Parámos de repente. Estávamos ofegantes, Mary começou a querer desvanecer-se.
- Não vás ainda. - Gritei eu agarrando-lhe na mão. - Fica! - Ela parou de desvanecer.
- Obrigada por tudo, mas tenho de ir agora. - Disse ela a sorrir.
- Está bem. - Respondi eu num tom desiludido e criançola. Mary desvaneceu-se a acenar-me com a mão.
Fiquei sozinha. De repente comecei a ouvir um barulho estranho ao sonho, mas já o tinha ouvido nalgum lado.
- O raio do telefone! - Acordei.