Aquilo que eu sempre acreditei ser uma absurdo para mim, na minha vida, finalmente se concretizou.
Sou uma mulher de meia-idade, vivo só, no meio do tédio, num Mundo feito à minha medida para que eu não me mexa muito, para que eu seja a marioneta dos outros.
Não sou feliz.
Não sou aquilo que os outros esperam nem aquilo que eu esperava ser. Mas enfim...a Vida em si não é aquilo que queremos, tão pouco aquilo que esperamos.
Mesmo assim a minha vida não é má. Tenho milhões no banco, vivo num apartamento enorme com todas as comodidades dignas de uma Rainha, adoro o trabalho que tenho, tenho um macaco e um cão em casa que se dão lindamente. A minha vida sentimental é...
Aliás, não é. Pareço ser muito complicada para o sexo masculino.
Não sou feliz. Sinto-me enterrada viva.
E todos gostam de passar por cima.
Esta noite, fui mais cedo para a cama, mas como de costume deitei-me a ler.
Horas depois, já quase à meia-noite, fechei o livro e pousei-o na mesa de cabeceira.
Para me ajudar a adormecer pus-me a olhar para o tecto branco decorado muito barrocamente.
Mas em vez de me sossegar, o tecto tem o efeito contrário. Ainda me põe a pensar naquilo que fiz todo o dia, no tempo que perdi com gente estúpida, que perdi a fugir de fotógrafos, que perdi a não viver...
Enfim, finalmente adormeci e apareci numa casa, muito poeirenta, o contrário total do lugar onde vivo.
O meu pijama tinha-se tornado nas minhas calças, casaco e sapatos favoritos.
Gosto de coisas velhas.
As calças eram minhas, comprei-as quando tinha dezoito. Incrível, ainda me servirem (
(e não me caírem pelas pernas abaixo).
O casaco comprei em Paris, quando lá fui a última vez. Foi amor à primeira vista.
O manequim inanimado e poeirento chamava por mim.
E por fim os sapatos. Uma herança.
Eram os sapatos do meu pai nos meus pés femininos e descalços, mas eu adorava aqueles sapatos. Que culpa tinha eu?
O papá também os adorava e autorizava-me a brincar com eles.
Talvez isto seja a melhor das poucas memórias que retive da minha infância traumática e turbulenta: A ternura que o meu pai transmitia sempre que me ajudava a calçar os sapatos sempre que caia deles. Mal os aguentava nos pés, agora calço-os.
Observei toda aquela triste casa. Talvez reflectisse o meu estado de espírito, ou apenas o dia de amanhã. Ouvi chuva. Sorri. Era o tipo de tempo que eu mais adorava na altura em que o meu pai ainda era vivo.
Permitia-nos brincar dentro de casa, com os meus irmãos.
O papá lia histórias.
O papá cantava.
O papá ria.
O papá dava-nos uma bolacha.
O papá ia-nos dar as boas noites ao quarto.
Mas o papá, certa noite, não acordou mais. E a mamã ficou sozinha com Mary, John, Michael e Barbara.
E a Mary chorou muito. A Mary amava o papá.
E a Mary tornou-se a mulher cinzenta que é hoje, naquilo que eu sou hoje, porque o papá não está.
E naquele momento vi a cadeira de baloiço. Sentei-me e pus a pensar em tudo.
E foi quando reparei que no escuro estava uma outra mulher, muito jovem, de olhar muito sincero e meigo. E foi aquela meiguice e sinceridade que me despertaram a curiosidade.
Ela avançou até mim.
E à luz da clarabóia que me iluminava o rosto pude ver então aquela jovem.
Era muito branca, tinha os olhos castanhos esverdeados, um cabelo liso castanho sem jeitos alguns, com uma franja bem cortada e penteada, lábios como pequenas pétalas de flores, nariz equilibrado e fino. Tinha um corpo fino e alto. Vestia-se muito simples, mas tudo lhe ficava bem. A jovialidade que ela tinha, tinha eu perdido havia muito.
E algo nos olhos dela me dizia que ela estava surpreendida.
Talvez ela me conhecesse.
E disse para mim própria que aquilo era um sonho.
Resolvi então falar com ela.
- Quem és tu?
- Chamo-me Amelia Atkins. - Realmente não a conhecia, mas fiquei surpreendida por ela falar comigo. - E tu? - Voltou ela.
- Não me conheces? - Perguntei eu, desconfiando. Não queria que me perturbassem naquele momento. Supostamente estava a dormir e devia estar descansada.
- Nunca te vi na vida... - Respondeu ela inocentemente.
- Chamo-me Mary Sanders, mas conhecem-me por Mary Addams. - Disse eu, suspirando, relembrando-me do que me causava tanta inquietação.
- Eu não te conhecer faz de mim uma ignorante, não é? - Perguntou ela com a mesma inocência.
Agradeci aquela ignorância por momentos mas a minha resposta foi mais dura.
- Se queres ver isso por esse ponto. Sim...talvez. - Disse eu arrependendo-me logo.
- Peço perdão, mas és conhecida por fazer o quê?
-Eu canto, toco piano, pinto, escrevo...etc. Não te sei dizer tudo o que faço. Mas que estou eu a fazer? Estou a falar com uma pessoa inventada pela minha imaginação... - Exclamei eu. Estava irritada comigo mesma e não ia permitir mais loucuras de mim própria naquele dia.
- Eu sou bem real. Tu sim, és um sonho. - Disse ela, no seu tom inocente e calmo.
- Não sou, não. Sou também muito real. Mas gostava de não o ser. - Disse eu, no meu tom derrotado, ou talvez derrotista, não sei.
- Porquê?
- Nem queiras saber. O Mundo não é como queremos,sabes?
- Claro que sei. Achas que ficar sentada a uma secretária todo o dia a fazer o meu trabalho e aquele que os outros não fazem é algo bom? - Levantei a voz de imediato àquela jovem que não tinha culpa de nada.
-E gostavas de estar a fazer o teu trabalho e a ser constantemente perseguida por jornalistas e admiradores só para saberem que champô é que usas? Ou com caneta escreves? Ou quantas vezes vais à casa de banho por dia?
- Compreendo que não seja fácil.
- Não é fácil. - Fiz silêncio. Quando olhei para ela, Amelia olhava para mim cheia de piedade naqueles olhos magnânimos. - Seres a marioneta da vontade de todos é simplesmente uma maldição que não quero que mais ninguém carregue.
E num tom de distracção Amelia disse:
- Gosto dos teus sapatos. - Fiquei de tal maneira enternecida que desatei a chorar como uma criança.
- Chorar não vai resolver nada. Mulheres como tu, não devem chorar. Nunca! - Disse ela sentando-se no chão e pondo as mãos nos meus joelhos como eu fazia com o meu pai.
Só que agora eu estava no lugar do meu pai.
Ele disse que um dia os papeis se trocariam.
Nunca esperei que fosse assim.
Nunca pensei que seria com ela, com Amelia.
Que sabia eu dela?
Nada. Absolutamente nada.
E mesmo assim, uma perfeita desconhecida consolava a minha tristeza ou a minha parvoíce, com um sorriso. O sorriso de criança que eu esquecera.
No entanto forcei o meu sorriso a aparecer, mas que afinal queria aparecer por ele próprio.
De repente, Amelia começou a desvanecer-se e percebi tudo. Ela tinha acordado.
E eu continuava a dormir e durante o sonho pensei muito nela. Pensei que talvez voltasse a sonhar com ela. Talvez...