sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Capitulo V - O Segundo Sonho - Amelia Atkins

Desta vez adormeci à secretária e o meu sonho transportou-me para um sítio calmo, ainda assim alegre.

Era um jardim cheio de flores, com um perfume agradável.

Um jardim muito clássico e antigo. Fazia lembrar aquelas quintas europeias de burgueses riquíssimos.

Eu vinha em cima de um cavalo. Passeei durante algum tempo pelo jardim, o cavalo não se cansava nem eu.

Algum tempo depois encontrei Mary sentada no chão à sombra de uma árvore a ler um livro e a comer uma maçã.



- Afinal és real! - Exclamei eu. Ela deixou cair o livro com o susto que apanhou. Eu desatei a rir.


- Acho que devias ter mais cuidado. Não é nada agradável ser assustada assim.


- Peço desculpa, Mary. Pensei que me tinhas visto a chegar.


Naquele momento reparei no que ela tinha vestido. O cabelo estava na mesma, mas no seu corpo estava um belo vestido vitoriano e de chapéu na cabeça e que eu também estava naquele "estado". Mary veio fazer festas ao cavalo.


- Amelia, como é que estamos a sonhar outra vez uma com a outra?

- Não sei. Nem sei como é que isto é possível.


- Também pensei que não fosse. - Desci do cavalo e fui pôr-me em frente dela. Parecia-me mais contente ou mais calma do que no sonho anterior.


- De onde és? - Perguntou ela.

- Eu sou de Dublin.


- Ah...e eu de...- Não a deixei acabar.


- Londres, eu sei.


- Parece que já arranjaste maneira de saber quem eu sou. Que mais sabes?


- Nada de especial...nada que os outros não saibam. Mas pareces-me ser muito boa pessoa. - Mary sorriu.


- Vê-se mesmo que ainda és muito jovem.


- Porque é que dizes isso Mary? - Começamos a andar pelo jardim. Ela sorria cheia de nostalgia.


- Já fui da tua idade. Ainda estás a formar-te como adulta. Mas aproveita enquanto ainda não o és definitivamente. És alguém raro. Orgulha-te disso.


- E orgulho-me disso. Sabes Mary, estou há um dia a tentar descobrir a fonte da angustia que vejo em ti. Mas tu sabes esconder os teus segredos. Perdeste alguém. Vê-se isso nos teus olhos. Sentes saudades dessa pessoa. Precisas dela agora. E ela não está. - Mary fulminou-me com o olhar vivo e sorriu.


- Ainda não está na hora de te contar. Mal te conheço.


- E este for o último sonho que temos juntas?


- E porque havia de ser o último, Amelia?


- Nunca se sabe o dia de amanhã.


- Sim. Mas isto é um sonho. Nada mais que isso.


- Não, Mary. Uma coisa que eu percebi antes de adormecer foi que isto é tudo menos um sonho. Isto é um encontro.


- Um encontro?


- Sim, sem dúvida é muito estranho, mas é a realidade. Isto está a acontecer porque talvez precisemos uma da outra. - Mary olhou-me como se fosse repreender uma criança, mas com meiguice.

- Porque havia eu de precisar de ti, Amelia?

- E porque havias tu de sonhar comigo, Mary?

- E porque havias tu de sonhar comigo, Amelia? - Estávamos as duas a olhar uma para a outra cheias de perguntas. Mas depois suspirou e olhou para mim como alguém que vai dizer a verdade - Tenho de admitir, eu preciso de alguém. Não alguém do trabalho, nem meu vizinho. Alguém que eu conheça de fora. Um amigo. Um verdadeiro amigo. Alguém com que eu possa contar. E talvez esse amigo, aliás amiga, sejas tu. Nunca se sabe.

- E porquê eu?

- Porque nem sequer te conheço. Nunca nenhuma aventura. Talvez esta seja a aventura da minha vida. Talvez seja desta vez que vou recuperar a confiança que perdi há muito tempo. Mas para isso preciso da tua ajuda. Achas que posso contar contigo? - Fiquei relutante. Ela tinha razão. A minha vida vazia precisava também de alguma aventura. Algo de que eu me orgulhasse.

Tive forçadamente que concordar com ela.

- Conta comigo. - Ela sorriu levemente e continuamos a andar.

O silêncio estava bem presente, a calma era envolvente. Mary parecia mais bem disposta naquele sonho glorioso.

De repente senti uma força a querer que eu corresse. Olhei para o olhar tranquilo de Mary.

Por momentos disse:

- Não, não lhe vou fazer isso. - Mas depois agarrei-lhe na mão e puxei-a para que corresse comigo.

- O que estás a fazer?! - Perguntou ela passada dos carretos.

- Cala-te e corre! - Exclamei eu sem juízo algum. E corremos pelo jardim a fora.

Para mim foi uma sensação libertadora e quando dei por mim, Mary corria de livre vontade, a rir e ia ao meu lado. Tínhamos o céu azul à nossa frente. O sol brilhava intensamente e ria.

As flores abriam à nossa passagem.. Foi a primeira vez que vi Mary realmente feliz.

Percebi o efeito que causava na vida dela.

Percebi que ela precisava mesmo de mim. Mas que eu também precisava dela.

Parámos de repente. Estávamos ofegantes, Mary começou a querer desvanecer-se.

- Não vás ainda. - Gritei eu agarrando-lhe na mão. - Fica! - Ela parou de desvanecer.

- Obrigada por tudo, mas tenho de ir agora. - Disse ela a sorrir.

- Está bem. - Respondi eu num tom desiludido e criançola. Mary desvaneceu-se a acenar-me com a mão.

Fiquei sozinha. De repente comecei a ouvir um barulho estranho ao sonho, mas já o tinha ouvido nalgum lado.

- O raio do telefone! - Acordei.









Capitulo IV - O dia de Solidão - Mary Sanders

Acordei naquele dia, algo perturbada com o que acontecera no sonho. Liguei ao Fredrick para não contar comigo no estúdio, que cancelasse todos os meus compromissos. Ele perguntou-me se me sentia bem. Eu disse que estava bem, mas precisava deste dia para tratar de algo de importante.
Tomei o pequeno-almoço na cozinha, em pé a olhar a janela, encostada ao balcão.
Depois foi até ao escritório e escrevi .
Aborreci-me.
Pensei em sair um pouco.
Peguei no carro e fui dar uma volta.
Passei por várias localidades mas tinha de ter cuidado a onde ia e onde era vista.
Fui para a praia.
Pela primeira vez em anos tirei os sapatos, senti a areia debaixo dos meus pés e passeei pelas ondas devagar. Senti o vento a varrer os meus cabelos.
Cheirava tanto a mar.
Era o cheiro da liberdade, o cheiro mais mágico de todos.
A praia estava deserta, o sol ainda ia alto quando limpei os pés e entrei no carro.
Fui procurar um sítio onde almoçar.
Entrei num hotel, sentei-me no restaurante, logo vieram ver o que eu queria, pedi um prato de massa italiana e um bom vinho tinto.
Almocei sozinha e calmamente.
Pensei no sonho que tinha tido enquanto tinha o copo de vinho tinto na mão.
Aquela rapariga...
Seria ela real?
E foi isso que fui tentar descobrir naquela tarde.
Ainda assim encontrei admiradores pelo caminho que tudo o que quiseram foi um autografo.
Dei-lhos de boa vontade.
Agradeceram-me mil vezes. E eu agradeci-lhes outras mil vezes.
Estava grata por aquele amor incondicional que eles me tinham. Gosto do amor deles, não o ignoro e tão pouco o desprezo.
Os melhores momentos que passei na minha vida, foi em frente ao meu público, tenho de admitir.
Eles fizeram muito por mim. Mostraram-me que ainda havia esperança, que ainda tinha utilidade.
Fui para casa. Esqueci-me completamente de tentar descobrir quem era a rapariga.
Jantei a sós e fui para a cama ler um livro.
Adormeci com o livro em cima do peito ainda aberto num página que falava sobre Amizade. Talvez essa página me viesse a ser útil.

Capitulo III - O dia Banal - Amelia Atkins

Acordei. Pisquei os olhos e uma e outra vez.
A luz do sol entrava pelo quarto.
Levantei-me, preparei-me para sair.
Vivia sozinha com a minha gata, uma persa branca ainda bebé que muitas noites me vinha aquecer os pés à cama. Adorava deitar-se na colcha.
Ronronava toda a noite.
Depois do pequeno-almoço saí de casa, dizendo à minha gata para se portar bem.
Trabalhei o dia todo. Só vi papelada à minha frente.
Livros para arrumar, papeis para arquivar.
Ao chegar a casa, vinha de rastos.
A gata não se tinha portado assim tão mal, tirando que as pedrinhas da caixa de areia estavam espalhadas pelo chão da cozinha e que tinha dormido dentro do cesto onde ponho os talheres a secar.
Tomei um banho quente, depois de ter limpo aquilo que a minha gata fez.
Para me distrair, liguei o meu ASUS e comecei a tentar distrair-me no facebook.
Pensei para mim mesma, que raio estava eu a fazer?
Desliguei o facebook, fui até ao motor de busca Google e escrevi Mary Addams.
Qual não foi a minha surpresa ao saber que aquela pessoa era de facto real, e de facto artista em várias áreas.
Recorri às imagens e era a mesma pessoa que eu tinha visto no meu sonho.
Tinha o mesmo rosto.
Tinha a mesma voz (magnifica, deixem-me que vos diga).
Tinha aqueles paradoxos maravilhosos nos olhos.
Era ela. Era ela a Mary que eu conheci.
No YouTube ela parecia ser a mesma pessoa desesperada por uma vida que eu tinha visto no meu sonho.
Aquele sonho não tinha sido só um sonho. Foi mais que isso, foi algo maior.
Foi um encontro.
Uma descoberta.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Capitulo II - O Primeiro Sonho - Mary Sanders

Aquilo que eu sempre acreditei ser uma absurdo para mim, na minha vida, finalmente se concretizou.
Sou uma mulher de meia-idade, vivo só, no meio do tédio, num Mundo feito à minha medida para que eu não me mexa muito, para que eu seja a marioneta dos outros.
Não sou feliz.
Não sou aquilo que os outros esperam nem aquilo que eu esperava ser. Mas enfim...a Vida em si não é aquilo que queremos, tão pouco aquilo que esperamos.
Mesmo assim a minha vida não é má. Tenho milhões no banco, vivo num apartamento enorme com todas as comodidades dignas de uma Rainha, adoro o trabalho que tenho, tenho um macaco e um cão em casa que se dão lindamente. A minha vida sentimental é...
Aliás, não é. Pareço ser muito complicada para o sexo masculino.
Não sou feliz. Sinto-me enterrada viva.
E todos gostam de passar por cima.
Esta noite, fui mais cedo para a cama, mas como de costume deitei-me a ler.
Horas depois, já quase à meia-noite, fechei o livro e pousei-o na mesa de cabeceira.
Para me ajudar a adormecer pus-me a olhar para o tecto branco decorado muito barrocamente.
Mas em vez de me sossegar, o tecto tem o efeito contrário. Ainda me põe a pensar naquilo que fiz todo o dia, no tempo que perdi com gente estúpida, que perdi a fugir de fotógrafos, que perdi a não viver...
Enfim, finalmente adormeci e apareci numa casa, muito poeirenta, o contrário total do lugar onde vivo.
O meu pijama tinha-se tornado nas minhas calças, casaco e sapatos favoritos.
Gosto de coisas velhas.
As calças eram minhas, comprei-as quando tinha dezoito. Incrível, ainda me servirem (
(e não me caírem pelas pernas abaixo).
O casaco comprei em Paris, quando lá fui a última vez. Foi amor à primeira vista.
O manequim inanimado e poeirento chamava por mim.
E por fim os sapatos. Uma herança.
Eram os sapatos do meu pai nos meus pés femininos e descalços, mas eu adorava aqueles sapatos. Que culpa tinha eu?
O papá também os adorava e autorizava-me a brincar com eles.
Talvez isto seja a melhor das poucas memórias que retive da minha infância traumática e turbulenta: A ternura que o meu pai transmitia sempre que me ajudava a calçar os sapatos sempre que caia deles. Mal os aguentava nos pés, agora calço-os.
Observei toda aquela triste casa. Talvez reflectisse o meu estado de espírito, ou apenas o dia de amanhã. Ouvi chuva. Sorri. Era o tipo de tempo que eu mais adorava na altura em que o meu pai ainda era vivo.
Permitia-nos brincar dentro de casa, com os meus irmãos.
O papá lia histórias.
O papá cantava.
O papá ria.
O papá dava-nos uma bolacha.
O papá ia-nos dar as boas noites ao quarto.
Mas o papá, certa noite, não acordou mais. E a mamã ficou sozinha com Mary, John, Michael e Barbara.
E a Mary chorou muito. A Mary amava o papá.
E a Mary tornou-se a mulher cinzenta que é hoje, naquilo que eu sou hoje, porque o papá não está.
E naquele momento vi a cadeira de baloiço. Sentei-me e pus a pensar em tudo.
E foi quando reparei que no escuro estava uma outra mulher, muito jovem, de olhar muito sincero e meigo. E foi aquela meiguice e sinceridade que me despertaram a curiosidade.
Ela avançou até mim.
E à luz da clarabóia que me iluminava o rosto pude ver então aquela jovem.
Era muito branca, tinha os olhos castanhos esverdeados, um cabelo liso castanho sem jeitos alguns, com uma franja bem cortada e penteada, lábios como pequenas pétalas de flores, nariz equilibrado e fino. Tinha um corpo fino e alto. Vestia-se muito simples, mas tudo lhe ficava bem. A jovialidade que ela tinha, tinha eu perdido havia muito.
E algo nos olhos dela me dizia que ela estava surpreendida.
Talvez ela me conhecesse.
E disse para mim própria que aquilo era um sonho.
Resolvi então falar com ela.
- Quem és tu?
- Chamo-me Amelia Atkins. - Realmente não a conhecia, mas fiquei surpreendida por ela falar comigo. - E tu? - Voltou ela.
- Não me conheces? - Perguntei eu, desconfiando. Não queria que me perturbassem naquele momento. Supostamente estava a dormir e devia estar descansada.
- Nunca te vi na vida... - Respondeu ela inocentemente.
- Chamo-me Mary Sanders, mas conhecem-me por Mary Addams. - Disse eu, suspirando, relembrando-me do que me causava tanta inquietação.
- Eu não te conhecer faz de mim uma ignorante, não é? - Perguntou ela com a mesma inocência.
Agradeci aquela ignorância por momentos mas a minha resposta foi mais dura.
- Se queres ver isso por esse ponto. Sim...talvez. - Disse eu arrependendo-me logo.
- Peço perdão, mas és conhecida por fazer o quê?
-Eu canto, toco piano, pinto, escrevo...etc. Não te sei dizer tudo o que faço. Mas que estou eu a fazer? Estou a falar com uma pessoa inventada pela minha imaginação... - Exclamei eu. Estava irritada comigo mesma e não ia permitir mais loucuras de mim própria naquele dia.
- Eu sou bem real. Tu sim, és um sonho. - Disse ela, no seu tom inocente e calmo.
- Não sou, não. Sou também muito real. Mas gostava de não o ser. - Disse eu, no meu tom derrotado, ou talvez derrotista, não sei.
- Porquê?
- Nem queiras saber. O Mundo não é como queremos,sabes?
- Claro que sei. Achas que ficar sentada a uma secretária todo o dia a fazer o meu trabalho e aquele que os outros não fazem é algo bom? - Levantei a voz de imediato àquela jovem que não tinha culpa de nada.
-E gostavas de estar a fazer o teu trabalho e a ser constantemente perseguida por jornalistas e admiradores só para saberem que champô é que usas? Ou com caneta escreves? Ou quantas vezes vais à casa de banho por dia?
- Compreendo que não seja fácil.
- Não é fácil. - Fiz silêncio. Quando olhei para ela, Amelia olhava para mim cheia de piedade naqueles olhos magnânimos. - Seres a marioneta da vontade de todos é simplesmente uma maldição que não quero que mais ninguém carregue.
E num tom de distracção Amelia disse:
- Gosto dos teus sapatos. - Fiquei de tal maneira enternecida que desatei a chorar como uma criança.
- Chorar não vai resolver nada. Mulheres como tu, não devem chorar. Nunca! - Disse ela sentando-se no chão e pondo as mãos nos meus joelhos como eu fazia com o meu pai.
Só que agora eu estava no lugar do meu pai.
Ele disse que um dia os papeis se trocariam.
Nunca esperei que fosse assim.
Nunca pensei que seria com ela, com Amelia.
Que sabia eu dela?
Nada. Absolutamente nada.
E mesmo assim, uma perfeita desconhecida consolava a minha tristeza ou a minha parvoíce, com um sorriso. O sorriso de criança que eu esquecera.
No entanto forcei o meu sorriso a aparecer, mas que afinal queria aparecer por ele próprio.
De repente, Amelia começou a desvanecer-se e percebi tudo. Ela tinha acordado.
E eu continuava a dormir e durante o sonho pensei muito nela. Pensei que talvez voltasse a sonhar com ela. Talvez...

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Capitulo I - O primeiro sonho - Amelia Atkins

Era espantoso como eu conseguia sonhar tanto numa noite fria como aquela.
Cheguei a sonhar três sonhos na mesma noite. Era um fábrica de sonhos. Uma criadora de sonhos mais estranhos que os antecedentes.
Aqueles que temos em crianças.
Como? Como? Perguntava eu...
Nada havia a explicar. Tinha de aceitar então o facto que tinha sonhos atrás de sonhos, utopias loucas, atrás de utopias loucas.
Quando eu os contava a alguém, perdiam sempre o encanto.
Não haviam palavras para descrever as paisagens que via, as pessoas que conhecia, os animais que passeavam dentro da minha mente. Eram demasiado meus! Eram demasiado vindos de outro mundo para me atrever a contar a alguém como eram e o que eram.
Era uma jornada fantástica. Mas ninguém saberia onde eu ia e o que via.
Eu mal sabia falar para contar. Parecia que a minha mente não me fornecia as palavras que eu necessitava.
Mas eis que aconteceu algo extraordinário!
A minha vida era suave e branda. Ocorriam-me coisas más e boas como a toda a gente. Ultrapassava as coisas más e festejava as boas. A minha realidade era o que se chama de "realidade ligeira".
Deixei de sonhar com estes lugares maravilhosos e enfrentei a realidade da pior maneira.
Os sonhos davam-me a ver agora a realidade pela perspectiva de alguém que não levava a vida tão simplesmente como eu.

Foi numa noite, num sonho em que vi essa pessoa pela primeira vez.

Estava numa casa velha, poeirenta, muito escura, muito triste. Eu ouvia a trovejar lá fora, a luz do sol estava fraca.
Depois olhei para a pessoa que estava sentada numa cadeira de baloiço. Tinha a mão branca debaixo do queixo, o cotovelo apoiado no braço da cadeira e estava muito pensativa, parecia remexer em memórias ou a pensar simplesmente no que havia de fazer à sua (complicada) vida.
Era uma mulher.
Uma mulher belíssima, a mais bela mulher que eu já vira, em sonho ou em realidade.
Tinha os cabelos cor de cobre, lisos com alguns jeitos e pelos ombros. Tinha uma pele lisa, cor de pêssego a tender para o branco, os olhos...Que Olhos! Olhos que olhavam para o vazio com um misto de gentileza, suavidade, tristeza, alegria...enfim todo uma mistela de paradoxos e emoções que numa palavra podia dizer-se que aquela mulher tinha um olhar...Vivo!
As vestes eram negras, mas muito sui generis.
O casaco parecia influenciado por um estilo militar, as calças ficavam-lhe curtas e permitiam-me ver as brancas e finas pernas que no seu fim tinham uns pés e por sua vez esses pés estavam aprisionados dentro de uns sapatos que pareciam ser bastante velhos e masculinos, mas entendi logo que seriam os seus sapatos favoritos.
Seriam alguma herança?
Aproximei-me. Ela fulminou-me com aquele olhar que eu tinha admirado tanto.
Percebi então que ela era algo desconfiada.
- Quem és tu? - Perguntou-me ela.
- Eu chamo-me Amelia Atkins. E tu?
- Não me conheces? - Perguntou ela, olhando para mim incrédula.
- Nunca te vi na vida... - Respondi eu, não sabendo se ela ia fica chateada, se feliz.
- Chamo-me Mary Sanders, mas conhecem-me por Mary Addams. - Disse ela baixando os olhos em direcção ao chão.
- E eu não te conhecer faz de mim uma ignorante, não é?
- Se queres ver isso por esse ponto. Sim...talvez...
- Peço perdão, mas és conhecida por fazer o quê?
- Eu canto, toco piano, pinto, escrevo...etc. Não te sei dizer tudo o que faço. Mas que estou eu a fazer? Estou a falar com uma pessoa inventada pela minha imaginação...
- Eu sou bem real. Tu sim, és um sonho.
- Não sou, não. Sou também muito real. Mas gostava de não o ser.
- Porquê?
- Nem queiras saber. O Mundo não é como queremos,sabes?
- Claro que sei. Achas que ficar sentada a uma secretária todo o dia a fazer o meu trabalho e aquele que os outros não fazem é algo bom?
-E gostavas de estar a fazer o teu trabalho e a ser constantemente perseguida por jornalistas e admiradores só para saberem que champô é que usas? Ou com caneta escreves? Ou quantas vezes vais à casa de banho por dia?
- Compreendo que não seja fácil.
- Não é fácil. Seres a marioneta da vontade dos outros é simplesmente uma maldição que não quero que mais ninguém carregue.- Disse ela, algo irritada.
Naquele momento olhei para os sapatos dela. Cada vez achava que gostava mais deles.
- Gosto dos teus sapatos. - Disse eu num tom demasiado infantil do que eu queria que tivesse saído e para minha grande surpresa ela começou a chorar.
Para remediar o que tinha feito, também eu me comportei como uma criança: sentei-me no chão aos pés dela e pus as minhas mãos nos joelhos.As lágrimas dela desciam pelo rosto belo abaixo.
- Chorar não vai resolver nada. Mulheres como tu, não devem chorar. Nunca! - Disse eu. Mary olhou para mim surpreendida, como se eu fosse a unica a querer saber dela realmente.
Sorri-lhe e forcei-a a retribuir-me um sorriso. O sorriso fantástico que encheu aquela casa de luz apesar da tristeza ainda nela presente.
Comecei a desvanecer e via o rosto assustado de Mary.
Finalmente acordei. Tinha sido um sonho. Mas seria aquilo apenas um sonho?